Mood: Contemplativa
Music: The Importance of Being Idle, Oasis
Durante sua recente visita ao Brasil, o Papa Bento XVI falou várias coisas polêmicas, mas uma delas em especial reverberou na minha cabeça: sua posição sobre católicos pró-escolha em relação ao aborto. Pra quem não sabe, o Pontífice disse que os membros da religião que apóiam o direito de uma mulher realizar um aborto se quiser devem ser excomungados.
Sou completamente pró-escolha. Não sei se eu faria um aborto caso engravidasse, mas acho que todo mundo deveria ter a chance de decidir se tem estrutura para colocar uma criança no mundo. Aqui na Inglaterra, onde o aborto é legalizado, as mulheres têm esse direito. No Brasil a coisa não é tão simples: a não ser que a mulher em questão tenha acesso a um médico que faça o procedimento clandestinamente – e tenha condições de pagar por ele – as soluções à disposição vão de tomar remédios caseiros a usar instrumentos como cabides para se livrar do bebê, muitas vezes com conseqüências desastrosas para a mãe.
Tenho uma historinha pra contar sobre este assunto. Minha mãe costumava utilizar os serviços de uma costureira, que ia à nossa casa de tempos em tempos para fazer roupas e fazer consertos. Esta senhora tem uma filha da minha idade, que aos 16 anos engravidou do primeiro namorado (segundo ela, durante sua primeira vez com ele). A mãe dela, supertrabalhadora, teria condições de pagar por um aborto, mas a menina preferiu ter a criança. Abandonou a escola, teve o menino e juntou-se com o namorado. Até hoje eles ainda estão juntos, e tiveram outra filha alguns anos depois, mas dependem da mãe dela pra sobreviver. E eu cresci ouvindo a costureira se lamentar pela decisão da filha, que teve a oportunidade de construir um futuro diferente pra si, graças ao trabalho da mãe, mas jogou a chance pela janela.
Até pouco tempo atrás, eu me considerava católica de fato, apesar de ter uma maneira particular de demonstrar minha fé (por exemplo, me confessei uma única vez, antes da minha Primeira Comunhão, e nunca mais). Tive meus altos e baixos. Houve época em que eu ia à missa todo domingo, mas por outro lado passei muito tempo afastada da religião depois de brigar com um padre a respeito do uso da camisinha – também, o cara queria me convencer de que ela não funcionava para prevenir doenças sexualmente transmissíveis porque tem microporos por onde os vírus passam!
Quando o Papa deu sua declaração a favor da excomunhão dos católicos pró-escolha, minha reação inicial foi de revolta. Mas depois de refletir um pouco, cheguei à conclusão de que o velhinho está certo. Se você se diz católico, não pode escolher só as partes da religião que te apetecem, descartando o que considera incoerente ou anacrônico, que é o que eu fazia. Para ser coerente de fato, eu não posso me declarar parte da Igreja Católica, já que não sigo o que os líderes da religião pregam.
Obviamente, não me considero mais católica. E aproveito a deixa para fazer um pedido aos leitores deste blog que, como eu, são católicos na teoria mas não na prática: sejamos coerentes, e abandonemos o barco antes que o Papa nos excomungue a todos.
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